Poesia para além dos corredores da faculdade


Poesia para além dos corredores da faculdade

Um dos vencedores em 2017 na categoria mais disputada do Nascente USP (Texto) concorrendo com 269 outros escritores, Jeferson Santiago de França (Letras USP – FFLCH) aceitou o nosso convite para uma entrevista e contou detalhes de sua inspiração para a produção dos poemas que venceram o concurso, falou da importância do Nascente para ele e as perspectivas que se abriram em sua carreira após o prêmio.

Por Gabriela Garzon, Jesualdo Firmino e Rodrigo Monteiro
22 de Abril de 2019


O Nascente USP tem a vocação de tornar visíveis os trabalhos dos jovens e talentosos alunos da USP. Em sua opinião, qual a relevância de um projeto como esse e como encara a sua participação no concurso?

O Nascente USP é uma oportunidade de mostrar a produção artística universitária, dado que o curso de Letras é árido e não estimula a criação literária, por mais paradoxo que isso possa ser. Na faculdade, ensinam você a dissecar um poema, mas não ensinam a sentir esse poema…  e muito menos incentivam a criar um poema! Isso se estende a todos os gêneros literários. Curiosamente, não há espaço e nem estímulo para a atividade artística no curso de Letras e a própria academia não incentiva, já que prioriza e valoriza apenas a produção científica. Óbvio que a pesquisa e o método científico são essenciais, mas a academia não precisa ser excludente como é, percebendo o exercício artístico como coisa menor. Como se criar algo exigisse menos capacidade intelectual do que desenvolver pesquisas!   Escolhi o curso de Letras por causa do meu óbvio amor à literatura e por acreditar que me “formaria como escritor”, mas estava enganado (bem como outros letrandos) o objetivo do curso não é esse… O que se tem na faculdade são iniciativas particulares, publicações e eventos individuais dos alunos… mesmo assim, há grande carência de saraus, de encontros literários, de promoção da produção estudantil. Então, o Nascente tem uma relevância única nesse cenário estranho da produção artística na universidade, pois traz a possibilidade de mostrar as obras ao público e também a oportunidade do encontro com outros criadores, já que reúne participantes de todos os cursos da USP!

Sua obra “Manuscritos do poeta sem musa” retrata, desnuda a sociedade e o “social” de maneira sóbria e crua. Quais foram as indagações que o levaram à criação de seus poemas?

Aprendi muito cedo que o ser humano é mesquinho e sórdido. Claro que isso não é uma generalização, mas na minha trajetória pessoal tive muitas experiências desagradáveis com as pessoas e isso me fez ser um tanto isolado… Não me excluo dessa condição de sordidez e mesquinharia, pois sou também humano e, portanto, extremamente cheio de falhas e defeitos! Talvez, se eu tivesse encontrado pessoas melhores, minha produção fosse menos crua… mas quando você cresce ouvindo que você é pobre, que você é feio, que você não é capaz, fica difícil gostar de pessoas. Também sempre tive uma relação difícil com superiores, com “gente que manda”… políticos, então, tenho verdadeiro asco! Mais uma vez, não é uma generalização… mas gente que se aproveita de uma posição privilegiada para oprimir ou para obter vantagens, gente que violenta os outros de diversas formas… sempre observei esse tipo de pessoas e isso é refletido nos meus poemas. Hipocrisia, ganância, preconceito, intolerância… esse é o tipo de matéria que essa gente fornece para a minha produção e trabalhar com esse material é o melhor tipo de resposta que posso dar!


Jeferson Santiago de França
foto: arquivo pessoal

Como o Nascente USP influenciou sua trajetória pós premiação?

Vencer o Nascente foi um estímulo muito pessoal, pois mostrou que o filho do pedreiro e da empregada doméstica pode produzir arte, sim, além de consumir! Um dos textos fundamentais do curso de Letras é “O direito à literatura”, do Antonio Candido, no qual ele afirma que o acesso aos diferentes níveis da cultura é um direito de todos… Sempre acreditei que toda manifestação artística  e cultural deve ser acessível a todos e que todos podem consumir e produzir tais manifestações… Desde que aprendi a ler e escrever, eu entendi que no exercício da escrita eu me realizaria! Eu não consigo viver sem escrever… Tive um professor que me disse certa vez que eu jamais conseguiria escrever um livro e que muito menos publicaria! Ainda bem que não acreditei nele e hoje tenho dois livros infantojuvenis publicados e estou preparando a edição dos “Manuscritos do poeta sem musa”… O Nascente abriu um novo caminho na minha trajetória, me colocou em contato com pessoas que não conheceria de outra maneira e também possibilitou uma divulgação maior do meu trabalho, pois trouxe convites para entrevistas e outras formas de promoção artística.

Para se escrever bem, sobretudo, deve-se ser um bom leitor. O que costuma ler? Como vê o impacto de suas influências sobre sua obra?

Leio de tudo, desde que me interesse e a escrita me envolva! Procuro não ter preconceitos, pois a academia torce o nariz para o que não é canônico e eu acho isso uma bobagem, pois o que hoje é canônico um dia não foi. Mas há certas leituras que são imprescindíveis para qualquer pessoa! Os clássicos, todo mundo deve conhecer os clássicos, pois fazem parte da bagagem cultural básica de qualquer um… Curiosamente, as maiores influências no que escrevo são dos autores que conheci na adolescência e das leituras que realizei nessa época! Nesse tempo, li quase tudo de Shakespeare (infelizmente, não na língua original), muito Machado de Assis e José de Alencar, devorei Nelson Rodrigues, bem como Plínio Marcos e uma escritora que me deixou apaixonado e hoje é praticamente esquecida, Cassandra Rios. Além do meu amor maior na literatura: Álvares de Azevedo! Plínio Marcos, Álvares de Azevedo, Cassandra Rios e Nelson Rodrigues foram os responsáveis por grandes rupturas íntimas que refletiram nas minhas atitudes como pessoa e como artista. Travei conhecimento com esses autores nas bibliotecas das duas escolas públicas onde estudei. As bibliotecas escolares são extremamente necessárias! Eu não tinha livros em casa e o primeiro contato com o objeto livro que tive foi na biblioteca da escola onde cursei o Ensino Fundamental… Aliás, eu fui um menino que roubava livros! No meu encanto com a literatura, eu tinha desejo de ter aqueles livros que para mim eram encantadores e, como eu não tinha dinheiro para comprar livros, furtava os livros da escola… mas depois sentia um arrependimento tão profundo e um remorso tão grande que e eu devolvia os livros secretamente. Fico imaginando a cara das bibliotecárias da escola quando encontravam, inesperadamente, os livros desaparecidos… Ainda hoje, em tempos de mídias sociais e de tantas tecnologias digitais, a leitura é fundamental!


Manuscritos do Poeta sem Musa
Jeferson Santiago de França