Realidade do negro é tema de peça baseada na obra de Plínio Marcos

A problemática do corpo preto e seus históricos processos de marginalização social são o mote central da montagem baseada na obra de Plínio Marcos

O Teatro da USP apresenta em curta temporada a peça Navalha na Carne Negra. Baseada em Navalha na Carne, de Plínio Marcos, a adaptação traz para o cerne da montagem a presença do negro na cena e na sociedade contemporânea em uma discussão com a marginalidade proposta pelo dramaturgo no texto original. Em cartaz de 19 de julho a 12 de agosto, de quinta a sábado, 21h e domingo, 19h a trama tem a participação de artistas de importantes grupos que discutem, pesquisam e participam do movimento negro, como Os Crespos e o Coletivo Negro de São Paulo e A Cia dos Comuns do Rio de Janeiro.

NAVALHA NA CARNE que completou 50 anos em 2017, é tida como um clássico do “teatro marginal”: a cena que fazia ver a “escória da sociedade”. Nela figuram três personagens, Neusa Sueli, Vado e Veludo – uma prostituta, um cafetão e um camareiro gay que fazem parte de um “subproletariado”,  nas palavras do crítico teatral Décio de Almeida Prado: “uma escória que não alcançara sequer os degraus mais ínfimos da hierarquia capitalista”.

Embora considerada “datada” sob certos aspectos, Navalha na Carne é aqui friccionada contra a pele negra – a pesquisa, realidade e experiências de uma atriz, dois atores e um diretor pretos cujas trajetórias vêm se construindo através de uma proposta estética que articula a presença preta na cena e na sociedade atual.

Assina a direção José Fernando Peixoto de Azevedo, dramaturgo, diretor teatral, professor da Escola de Arte Dramática da USP – EAD, fundador do Teatro de Narradores (1997-2017) e colaborador do grupos Os Crespos, além de dramaturgo do espetáculo Isto é um Negro?. No elenco Lucelia Sergio, da Cia Os Crespos (SP), Raphael Garcia, do Coletivo Negro (SP) e Rodrigo dos Santos, da Cia dos Comuns (RJ).

DO CORPO NEGRO

A problemática do corpo preto e seus históricos processos de marginalização social são o mote central da montagem, que lança luzes sobre questões relativas à hierarquização social vigente. As questões atravessam o texto de Plínio Marcos e reverberam na produção teatral hegemônica de nosso país. Quem são os “marginais” de Plínio Marcos hoje? Onde se encontram? Como lidam com seus desejos e necessidades? Qual sua expectativa de vida? Eles se reconhecem como parte dessa “escória”? O que esperam da sociedade – se é que ainda esperam alguma coisa?

Do corpo-mercadoria – a redução perversa da imagem do corpo preto produzida pela história da escravidão – à mercadoria-corpo que é a prostituta Neusa Sueli estancando sua fome com um sanduíche de mortadela; da sexualidade excessiva da “bicha” Veludo à sexualização do corpo negro, corpo-objeto ao qual não se concede o direito ao desejo; e, a partir daí, mesmo a fantasmagoria viril chamada Vado, cuja expressão é imitação de uma violência cuja gramática constitui uma gestualidade macaqueada da violência naturalizada na figura do macho nacional.

DO EXCESSO E DA EXCEÇÃO

Excessos de vida e de morte, de potência e impotência, de grandeza e insignificância. Vestígios de uma história marcada no corpo preto, feita de gritos e de silêncios. Imaginar um futuro implica em lançar o olhar às cicatrizes e permitir a escuta de uma potência inaudita – provavelmente, a voz de um anseio oprimido que jamais desistiu da vida.

Nessa Navalha na Carne Negra, as figuras em jogo não são apenas vítimas ou imagens de uma destituição absoluta. Elas são sobretudo figuras em luta: tanto em cena como na vida, a batalha pela sobrevivência revela o quão portadoras de vida ainda são. Na resiliência de corpos adoecidos de sua negação, revela-se uma intuição silenciosa, de que os atravessamentos produzem diferença, permitem que saibam ainda o que são; como qualquer corpo doente, imaginam a cura.

DA CENA

A cena se constitui como um dispositivo-estúdio em que imagens são captadas e transmitidas ao vivo. A câmera, dispositivo de olhar e enquadramento está presente e o tempo todo adere a Neusa Sueli forçando uma construção. O espectador vê o jogo em cena e compara com o que assiste na tela. Os monitores revelam a dimensão do corte, emoldurando o jogo e sua teatralidade. É preciso atravessar a saturação da imagem, do corte, do enquadramento, para conferir a suposta totalidade da cena, já saturada de presenças, transitando entre o jogo ficcional do texto e o jogo estrutural da captação de imagem. A luta entre as personagens é duplicada pela tensão gerada pelo trabalho de captura da imagem.

O olhar de Neusa Sueli –  puta, preta, mulher, corpo-mercadoria – contempla (porque precisa contemplar) a imagem de um futuro. Ela se mantém atenta, examinando a miséria, o desespero e a desesperança, em busca de uma pista – o mais sutil laivo de vida. Seu olhar há de nos indicar a direção do grande salto.

Direção Geral e Dispositivo Cênico: José Fernando Peixoto de Azevedo Atores: Lucelia Sergio, Raphael Garcia, Rodrigo dos Santos Vídeo: Isabel Praxedes, Flávio Moraes Iluminação: Denilson Marques Direção de Arte: Criação Coletiva Assessoria para Trabalho Corporal: Tarina Quelho Programação Visual: Rodrigo Kenan Produção: corpo rastreado Fotos: Isabel Praxedes

Serviço

Navalha na Carne Negra

Onde | Teatro da USP – TUSP | Centro Universitário Maria Antonia – Sala Multiuso
Rua Maria Antonia, 294, Consolação, São Paulo.
Quando | De 19 de julho a 12 de agosto – Quinta a sábado, 21h e domingo, 19h.
Quanto | R$ 20 inteira e R$ 10 meia |  A bilheteria abre 2h antes do início da sessão.
Classificação etária | 16 anos
Duração | 50 minutos

 

Por Teatro da Universidade de São Paulo

Navalha na Carne Negra
  • TUSP | Ceuma | Sala Multiuso
    • Quinta, Sexta e Sábado
    • Das 21:00 às 21:50
    • Domingo
    • Das 19:00 às 19:50