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Apresentação – Tatiana

Tatiana - aluna

A Universidade sente justo orgulho de nossos alunos da Terceira Idade. Um exemplo que desperta admiração é a aluna Tatiana Douschkin que vemos na foto.

O bandolim foi feito de uma cabaça que ela plantou, colheu, encordoou e transformou no instrumento musical.

Desde a semente até os acordes de Bach estão presentes as mãos de Tatiana.

Fui visitar a artista em sua casa cheia de lembranças; ela mora na mesma casa acolhedora onde passou a infância com seus pais. Ele veio da Rússia em 1926 para o Brasil onde se casou com uma brasileira. Seus pais foram excelentes educadores, eles gostavam de contar histórias.

“Quando eu lia Monteiro Lobato conversávamos muito sobre o livro com meus amiguinhos. Naquele tempo se conversava muito.

Cresci aqui nesta casa, quero ficar aqui. Tenho vizinhos que me conheceram desde criança. Crescemos juntos. Esses vizinhos, que ainda tenho, dizem que fui muito levada.”

Ouçam a aventura de uma menina travessa contada por ela mesma:

“Aqui por perto as ruas eram todas de terra. Veio um circo. Eu escapava de casa para ver o elefante. Mas o circo precisou ir embora. Acorrentaram o elefante e a Prefeitura precisou fazer algo por ele. Meu pai falou: – Deixa o elefante, que nós cuidamos. E ele ficou num terreno ao lado de casa e eu ia sempre vê-lo.

O tratador acabou permitindo que eu desse todo dia uma volta aqui pelo bairro, passeando no elefante.”

Isso aconteceu no Jardim da Saúde, entre a Vila Mariana e o Ipiranga.

O que se pode esperar de uma menina assim?!

Ela cresceu e se formou em música (violino). Mas atestam o interesse pela nossa música seus diplomas em zabumba, caixa, triângulo, ganzá, percussão de maracatu.

Formou-se também em Biblioteconomia e trabalhou na biblioteca da FAU por quinze anos. Depois, na Assembleia Legislativa onde ficou até se aposentar despertando a estima de todos.

“Agora tenho tempo para pensar. Comecei a estudar na Universidade Aberta à Terceira Idade em Museologia porque estava organizando um Museu; foi por necessidade.

Depois cursei…. creio que umas vinte disciplinas.

Melhorou a essência da vida, houve um rejuvenescimento, o contato com a meninada foi emocionante!

Que alegria senti quando um colega jovem me convidou para caminharmos juntos pela cidade para um estudo de urbanismo!”

O Jardim da Saúde, onde ela passeou de elefante quando criança, muito lhe deve: liderou com os vizinhos o tombamento do bairro quando ameaçaram construir prédios em sua paisagem agreste.

“Era uma batalha, fui de vizinho em vizinho para convencer. Foi numa antevéspera de Natal, em 1994, que ficou decidido e assinaram o tombamento do bairro. Chorei.”

Ali ficaram as árvores, o silêncio, o acolhimento para seus felizes moradores. Não é por acaso que Tatiana veio ao mundo no Dia da Árvore.

Quantos bairros de São Paulo estão combatendo para preservar sua paisagem, sua memória cultural, seu horizonte, enquanto alguns políticos estão negociando o espaço do bairro, palmo a palmo, com especuladoras imobiliárias?

Mas a nossa lutadora não se deteve na salvação do seu querido bairro do qual afastou para sempre a temível verticalização.

Hoje ela participa, com a coragem que Deus lhe deu, na luta contra as usinas nucleares. E confessa:

“É difícil mudar as pessoas de uma hora para outra. Mas algumas escutam e cada pessoa que muda já é uma vitória.

O que significa a Universidade de Terceira Idade para mim? Esperança de vida.  Esperança.”

Texto por Ecléa  Bosi

    
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