
Nossa sociedade atravessa um momento de muitas inquietudes e os projetos apresentados nesse ano de 2021 foram marcados por intenso engajamento em questões sociais, raciais e de gênero. Diante dos complexos desafios da contemporaneidade, esse movimento revela estudantes interessados no que se passa para além dos muros desta universidade, empenhados em trazer realidades diversas e pouco pautadas nos meios de comunicação.
É importante destacar que o conjunto das propostas inscritas nesta edição do concurso Nascente USP evidenciam grande qualidade artística e diversidade criativa, tornando o trabalho de seleção instigante e difícil.
Comissão Julgadora da Categoria de Audiovisual
Da noite para o dia. De dentro para fora. A partir dos relatos de lésbicas artistas e militantes frequentadoras do Ferro’s Bar, somos conduzidas para um episódio central para a formação do movimento lésbico brasileiro no começo dos anos 1980, o “Levante do Ferro’s”, também conhecido como o “Stonewall brasileiro”. Por meio de fotografias criadas e recriadas em colagens, lambes, projeções, recortes de jornal e excertos de vídeos da época, o filme mostra como as lésbicas deixam de ser uma figura encontrável apenas à noite, no interior dos apartamentos, e se tornam um sujeito político que se ergue contra a censura a um dos periódicos lésbicos de maior circulação na década de 1980, o ChanacomChana. O Ferro’s Bar representa um espaço para a memória político-afetiva de suas frequentadoras e uma forma de atualização desta história coletiva e política ainda pulsante. Se, ignorando as recomendações do relatório da Comissão Nacional da Verdade, o Ferro’s jamais foi transformado em espaço de memória, o filme pretende instituí-lo simbolicamente.
O filme trata de intimidade, dor e amadurecimento conforme aborda as complexidades do relacionamento entre mãe e filha em uma família inter-racial brasileira de classe média baixa. Acompanhamos Juliana, uma jovem negra que acabou de ser aprovada em sua banca de Trabalho de Conclusão de Curso. Apesar da grande conquista, Juliana lida com o conflito moral de não ter convidado sua mãe, Rita, uma mulher branca, para esse evento importante de sua trajetória, por não saber como ela lidaria com o tema de sua pesquisa: “A questão do racismo no contexto familiar inter-racial”. Com a culpa, Juliana passa a rememorar momentos de sua criação, que a fazem questionar e confrontar contradições da relação dela com a mãe.
“Nova Iorque, mais uma cidade” relata a experiência da cineasta indígena brasileira Patrícia Ferreira Para Yxapy em Nova Iorque e suas reflexões ao visitar o Museu Americano de História Natural. Ao desconstruir as estratégias coloniais de representação do grande museu através do olhar da própria Patrícia, o documentário é um exercício de antropologia reversa, em que as formas ocidentais de pensar e representar os povos indígenas são criticadas pelas poderosas falas da cineasta indígena. Patrícia se depara com uma série de exposições, debates e atitudes que a fazem refletir sobre o mundo dos “juruá”, contrastando-o com os modos de existência guarani.
“O que fica de quem vai” se debruça sobre o luto, a masculinidade e a meritocracia. O curta preza por uma narrativa dramática e sensível. No filme, a determinação de Jackson em preservar a memória de seu grande amigo Alex apesar dos obstáculos sociais e emocionais cria o pacto de empatia entre protagonista e espectador, o que abre caminho para as discussões apresentadas.
Mais de 200 famílias perderiam suas casas com a reintegração de posse da Favela do Cimento. A comunidade, indignada com as providências tomadas pela prefeitura, conta apenas com sua união e o apoio do Padre Julio Lancelotti contra a máquina do estado, que anunciava uma realocação forçada dos moradores ao fim daquela semana. Entretanto, antes do dia da reintegração chegar, a Favela é tomada por um incêndio iniciado sob circunstâncias misteriosas, deixando seus habitantes em uma situação ainda mais vulnerável.
Glaucia Davino
Glaucia Davino é pós doutoranda no Instituto de Artes, da UNESP, doutora em Ciências da Comunicação, mestre em Artes e Bacharel em Cinema, todos pela Universidade de São Paulo. Tem experiência profissional na área de cinema, como professora, por mais de 25 anos, na graduação e na pós-graduação, orientadora de trabalhos de conclusão na graduação e pós graduação. Foi líder do grupo de pesquisa Núcleo Audiovisual e é membro do grupo de pesquisa Artemídia Videoclip. Criadora e coordenadora do Seminário Histórias de Roteiristas, por mais de 10 anos. Publicou artigos e livros na área do audiovisual e roteiro.
Luis Fernando Angerami
Professor doutor da Universidade de São Paulo, atuando no Departamento de Cinema, Rádio e TV da Escola de Comunicações e Artes da USP, desde 1997. Foi Vice-chefe (2008-2010) e Chefe (2010-2013) do Departamento de Cinema, Rádio e TV, e membro de diversas comissões na universidade. Docente no Curso Superior do Audiovisual / USP, sendo responsável por disciplinas nas áreas de direção e linguagem audiovisual. Pesquisador nas áreas de Audiovisual (cinema, TV e vídeo) e Comunicação Ambiental. Vice-coordenador do Grupo de Pesquisa LabArteMidia Laboratório de Arte, Mídia e Tecnologias Digitais, do Departamento de Cinema, Rádio e TV, CTR-ECA/USP.
Roberto Moreira
Seu primeiro filme de longa-metragem, Contra Todos, recebeu 28 prêmios nacionais e internacionais. Em seguida, dirigiu para a televisão episódios das séries Cidade dos Homens, Antônia, Pedro & Bianca, (ganhadora do Emmy Kids Award) e fez a direção geral da série Condomínio Jaqueline. Em 2009 lançou seu segundo longa-metragem, Quanto Dura o Amor? e em 2019 concluiu seu novo longa-metragem, Terapia do Medo. Livre-docente e doutor pela ECA-USP. É mestre em História da Arte pela UNICAMP, é professor de direção e roteiro no Curso Superior do Audiovisual da ECA-USP.