Nascente: programa revela e premia, mas acima de tudo, abre oportunidades

Estudantes que participaram da mostra cultural destacam que ganhar não é o principal fator e sim a possibilidade de mostrar seus projetos

Por Elcio Silva, Gustavo Drullis, Michel Sitnik e Teresa Espallargas
06/10/2017 às 18h50

Em sua 25º edição, o Programa Nascente da USP realizou, no dia 28 de setembro (quinta-feira), a Festa de Premiação, laureando 11 trabalhos, que envolveram a participação de mais de 20 estudantes. Desde o dia 21, como parte de sua programação, o projeto trouxe apresentações gratuitas de música e teatro, sarau literário e exposição, contendo obras de artes visuais, design e audiovisual.

Realizado anualmente pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP (PRCEU), o concurso é destinado a fomentar a arte entre alunos de graduação e pós-graduação da universidade, possibilitando a circulação e apresentação da produção artística universitária para além dos muros da USP, em espaços externos da USP ou de parceiros.

Documentário ReconstruSom

Documentário ReconstruSom

Em seu discurso, durante a festa de premiação, o Pró-Reitor de Cultura e Extensão Universitária da USP, professor Marcelo Roméro, destacou que o Nascente chegou a 9.493 inscritos em sua história e que teve a oportunidade de revelar alguns nomes que hoje despontam no cenário artístico nacional.

“Eu pedi para fazer um levantamento de quantos alunos já participaram desse programa Nascente. 9.493 alunos já se inscreveram, isso é muito legal, quase 10 mil alunos. E alguns já despontaram e iniciaram carreiras individuais, entre eles, o escritor José Roberto Torero, o ator Luís Miranda, o cineasta Paulo Sacramento e a fotógrafa e artista visual Flávia Junqueira, entre outros que estão se apresentando”, revela.

Esse ano, 547 trabalhos foram inscritos, com a participação de 634 alunos. Deste total 82 trabalhos passaram para a fase final do concurso nas categorias de Artes Cênicas, Artes Visuais, Design, Audiovisual, Música Popular, Música Erudita e Texto.

Os trabalhos finalistas das categorias de Artes Visuais, Design e Audiovisual foram reunidos em uma exposição, pela primeira vez montada no Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC – USP), ao lado do Parque Ibirapuera. A mostra Visualidade Nascente, que começou no dia 23 de setembro e continua em cartaz até 29 outubro, conta com 38 obras, entre pinturas, esculturas, gravuras, fotografias, projetos de filmes, revistas e produtos, além de outros tipos de produções artísticas visuais.

A Festa de Premiação aconteceu logo após as apresentações dos finalistas das categorias de Música Popular e Erudita. Aos jurados coube a tarefa de revelar os nomes dos 11 vencedores desta edição do Nascente. Cada categoria foi premiada com 4 mil reais.

Um concurso ou uma oportunidade?

Série Guerrilha Imaginár

Série Guerrilha Imaginária (gravura)

Durante o evento, a cada etapa, um discurso semelhante por parte de estudantes e jurados aparecia, inclusive durante a Festa de Premiação: em boa parte das entrevistas, as pessoas ressaltaram o caráter importante que o Nascente representava na difusão dos trabalhos artísticos dos estudantes.

Yasmin Gazzaoui Torres, estudante do último ano do curso de Design, revelou que em seu curso muitos trabalhos bons ficavam engavetados ou eram visto apenas pelos colegas de curso e o Nascente representa uma oportunidade para que eles sejam apreciados.

“O Programa Nascente é uma grande oportunidade de valorização dos trabalhos estudantis, dá a abertura de compartilhar com a comunidade USP e, também com as pessoas de fora, aquilo que é produzido dentro do espaço acadêmico, dando visibilidade aos projetos e também aos futuros profissionais que ali estão se formando”, relata.

Já Otto Rodolfo Blodorn, último anista de Artes Cênicas na Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), contou que apresentar uma peça de teatro normalmente é muito custoso e o Nascente traz uma possibilidade. Para ele a premiação é importante, mas nem tanto quanto ter um espaço de apresentações.

“É muito legal poder ter um espaço aqui, com toda uma estrutura que USP já oferece. E claro, a possibilidade de premiação abre portas, ganhando ou não. A indicação que a gente ganhou – os finalistas – auxilia a gente a vender, mandar para festival, é algo que já dá um currículo”, explica.

Coala – Transferência de pacientes conscientes

Coala – Transferência de pacientes conscientes

Francisco de Assis Pogian é artista visual e acompanhou as obras expostas no Museu de Arte Contemporânea. A princípio não sabia que se tratavam de projetos de estudantes e isso para ele foi uma surpresa. Gostou de muito dos projetos de design e nas artes visuais sentiu um pouco de falta de novos suportes e experimentações, mas destacou positivamente os trabalhos e a iniciativa.

“Não só esse prêmio, essa iniciativa, mas tudo que ajude aos estudantes criarem possibilidades de execução de algum projeto, ou criar projetos com algum tema proposto, enfim, tudo que ajude esse desenvolvimento estudantil no caminho da formação é muito importante e deveria ter muito mais porque a coisa mais difícil quando se está estudando é achar um caminho”, destaca.

Vencedor na categoria Música Erudita, Guilherme Ribeiro da Cunha, aluno do curso de Música da ECA-USP, participou pela terceira vez e falou sobre o caráter estimulador do concurso.

“Este programa é realmente estimulador tanto de preparação como o local exímio para a gente apresentar nossa produção. Até brinco às vezes que o legal do Nascente é ser finalista, pois quando você ganha, não pode mais participar”, relatou.

Nesta edição, trabalhos que foram vencedores de edições anteriores foram apresentados ao público na Festa de Premiação, buscando atender a demanda e não encerrar o caminho dos premiados após receberem o prêmio. Parcerias com instituições externas, como o Centro Cultural Unibes e o SESC, também devem conceder futuras possibilidades.

Medalha para bombeiro

Medalha para bombeiro

A professora Susana Igayara, docente do Departamento de Música da ECA-USP e jurada desta edição na categoria Música Erudita, salientou que sempre surgem boas ideias de fomento à cultura, mas muitas vezes isso se perde. Para ela, a continuidade do Nascente, que chega há 27 anos, é um diferencial.

“No Brasil as ideias surgem e param. Como o Nascente tem se mantido há muito tempo, também é um estímulo. Os alunos se preparam o ano inteiro. Então eu acho que isso é realmente uma coisa muito louvável, a USP manter esse prêmio todos os anos e a cada ano tentando que ele seja ainda melhor”, complementa.

A seleção

Durante o processo de seleção os jurados se debruçaram sobre inúmeros projetos e para boa parte deles o nível dos selecionados para a fase final foi altíssimo.

A professora Adriana Lopes Moreira, do Departamento de Música da USP da ECA – USP e também jurada da categoria Música Erudita, questionada sobre a dificuldade de julgar obras tão distintas, explicou os critérios que utilizam na seleção, mas não sem antes destacar as peças inscritas, sobretudo as selecionadas.

“Quando você tem um nível de excelência em um trabalho de composição e performance, você consegue reconhecer, porque existem níveis de domínio técnico, de compreensão e da criação daquela obra. Em música, nós temos três níveis de criação: a criação por parte do compositor, a recriação pelo intérprete e a recriação pelo do ouvinte. A obra é criada em uma parceria tripartite. Então, é muito possível avaliar quão profundo é esse nível de criação nos dois primeiros âmbitos. Quando você está avaliando uma composição você foca no primeiro âmbito da criação, quando está avaliando a performance você foca no segundo”, exalta.

Segundo Adriana, observa-se a linguagem utilizada e percebe-se até onde o intérprete ou o compositor conseguiram chegar com a obra criada ou com o instrumento escolhido para interpretar determinada obra.

“Você avalia o primeiro nível de criação que é o da composição e vê o tipo de linguagem que ele está usando e até onde ele conseguiu chegar. Você reconhece e consegue comparar com a obra da outra linguagem. Por isso que algumas vezes acontece da peça eleita pelo júri não ser a eleita pelo público leigo. Muitas vezes o público leigo elege aquela peça que mais condiz com o seu gosto pessoal e quando você faz parte de um júri não se vale deste gosto, você identifica a linguagem escolhida para aquela obra e vê até onde o intérprete ou compositor chegaram” completa.

Rejunte

Rejunte

Para Artes Cênicas, os jurados Felisberto Sabino da Costa, professor do Departamento de Artes Cênicas da ECA-USP (CAC) e René Piazentin, orientador de arte dramática do Teatro da USP (TUSP), destacaram a pluralidade das subcategorias que envolvem o julgamento de uma peça teatral e também o quanto o artista conseguiu chegar no que se propôs a desenvolver como principais critérios de julgamento.

“Os critérios mais técnicos são dentro daquilo que eles propõe enquanto categoria de inscrição. Que parâmetros a gente pode usar ali quando é direção, interpretação coletiva ou individual? Perceber como é que aquilo se dá no processo, como se desenvolve naquilo que eles propõe. Como o que foi colocado se ajusta com o que é apresentado enquanto proposta e evolui no processo, na cena – o jogo, o corpo, a voz, a proposta de atuação”, explica Costa.

Já Piazentin destacou que o julgamento também se vale do quanto o trabalho se aproxima da intenção do artista.

“O que acho muito importante para avaliar uma obra, não só em relação a esse projeto, é você assistir um espetáculo e, na medida do possível, tentar se desvincular das suas preferências pessoais. Olhar para aquele trabalho e se sensibilizar para perceber uma medida entre o que aquele grupo, aquele artista ou aquela artista, tem de intenção inicial e o quanto a materialidade daquele espetáculo representa esse desejo. Analisar trabalhos é tentar perceber o quão próximo do desejo daqueles criadores a obra ficou”, completa.

O programa Nascente disponibiliza em seu site as informações dos trabalhos finalistas e dos vencedores com dados multimídia. Para conhecer os trabalhos entre no endereço http://prceu.usp.br/nascente/premiados-2017/.

Por Comunicação Institucional - PRCEU

25º Programa Nascente