Público heterogêneo em auditório lotado marca evento da USP sobre envelhecimento ativo

II Simpósio USP Rumo ao Envelhecimento ativo trouxe especialistas para discutir os desafios do envelhecimento em diversos pilares, como mercado de trabalho, tecnologia, saúde, sociedade e direitos

Texto e Fotos | Elcio Silva
11/05/2018 16h20

Os desafios do envelhecimento foram o foco das discussões do II Simpósio USP Rumo ao Envelhecimento Ativo, realizado na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin na última quinta, 10 de maio. O evento trouxe mais de 300 pessoas ao auditório com uma heterogeneidade de idades e interesses, de jovens nascidos a partir da década de 90 a idosos com quase 90 anos, em uma programação vasta com quase 10 horas de duração.

O evento, que visa valorizar a população idosa e propor soluções para uma melhor qualidade de vida, é parte do programa Universidade Aberta à Terceira Idade da USP organizado pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP em parceria com o projeto Envelhecimento ativo do Hospital Universitário (HU). A participação foi gratuita, mediante inscrições prévias que esgotaram em poucos dias.

Para o Dr. Egídio Dorea, médico e coordenador do II Simpósio USP Rumo ao Envelhecimento Ativo, o balanço do evento é extremamente positivo.

“Esse segundo simpósio foi fundamentado nos pilares do envelhecimento ativo que é participação, segurança, aprendizado continuado e saúde e no meu balanço foi extremamente positivo”.

Dentre as atividades para essa segunda edição Dorea destaca a importância dos debates.

“Tivemos debates muito importantes a respeito do papel do idoso no mercado de trabalho, como se recapacitar ao longo da vida. Falamos sobre a possibilidade de prevenir uma das doenças crônicas que é um grande estigma do envelhecimento, a demência, além de cuidados paliativos, área recente na medicina brasileira e como encarar o processo de morte por um viés mais realista. Também abordamos o papel da tecnologia no envelhecer, sobre a visão do envelhecimento na sociedade e da importância de se ter uma narrativa como propósito de vida e por fim falamos sobre a questão dos direitos, que deveriam ser universais e naturais” destaca.

Mercado de Trabalho

A preocupação com o mercado de trabalho para quem já chegou aos 60 foi o tema do primeiro módulo do evento. A experiência de trabalho com a plataforma MaturiJobs que oferece oportunidades para pessoas acima de 50 anos e outras iniciativas como o Lab 60+ e o 7Bi, redes que conectam e proporcionam soluções de negócios para os idosos, trouxe ideias para a mudança na forma como as pessoas enxergam o trabalho e também para a criação de novas formas de trabalho que possam gerar um crescimento sustentável e oportunidades para os seniores.

De acordo com o professor Mórris Litvak (MaturiJobs) as empresas não possuem um número preciso do percentual do consumidor 50+ e o potencial é muito grande. “As empresas olham muito mais para questão de saúde, mas há uma gama de mercado para ser explorada para esse público” relata.

Há um crescimento exponencial da população idosa e é necessário que as pessoas se preparem para essa fase da vida seja pelo viés financeiro, tecnológico ou de aprendizagem e é isso que propuseram os profissionais que discutiram a tecnologia para o público 60+.

Tecnologia

Inúmeros projetos e soluções tecnológicas promovem ao redor do mundo soluções para projetos voltados para o público sênior, como a Aging 2.0 – rede de networking mundial criada em São Francisco com polos em vários locais do mundo – que promove o fortalecimento de startups focadas em produtos e serviços inovadores. De acordo com a Layla Vallyas, diretora da rede em São Paulo, “um dos principais objetivos da rede é fomentar iniciativas que possam resolver um problema real e os desejos do público 60+”.

Dentre os cases de sucesso ela citou o EuVô, um serviço de transporte especializado no público 60+, a Isgame, uma escola de desenvolvimento de games que promove cursos para o público 50+, no qual os idosos não só jogam como programam os jogos com o objetivo de promover suas funções cognitivas e sua memória, e a Gero360, que é um aplicativo de gestão de cuidados para com os idosos que engloba a participação de familiares, do cuidador profissional, do médico e de profissionais que atendem em domicílio com a intenção de trazer soluções voltadas para a rotina de cuidados e para o bem-estar dos longevos.

Questionado sobre como os idosos com baixa renda podem usufruir destes benefícios o Prof. Sérgio Duque-Estrada, revela que por parte do estado esta não é uma solução de curto prazo, mas destaca as iniciativas particulares.

“Sem dúvida isso é um drama, mas estamos agindo sobre ela, aqui mesmo existem algumas startups que pensam nisso como é o caso da EuVô e da Morar com Você”, ressalta.

Saúde

No bloco voltado para a saúde foram discutidos temas como o cuidado paliativo, como prevenir e reverter a demência e como encarar o processo da finitude. De acordo com a Dr. Sônia Maria Dozzi Brucki, palestrante deste módulo, existem fatores que podem prevenir a demência.

“O comprometimento sensorial, como a perda visual e auditiva faz com que as pessoas tenham mais chances de evoluir o quadro de perda cognitiva leve para a demência. Tratar isso é uma forma de prevenir. Quem pratica atividade física com regularidade, quem tem maior alto astral, vamos dizer assim, também tem menor chance de desenvolver demência. Em resumo são vários fatores, exercício físico, a interação social, boa alimentação, atividade cognitiva e principalmente o bom humor e sociabilidade são os fatores mais importantes para manter a cabeça melhor possível”, explica.

Da esquerda para a direita: professor Luiz Felipe Pondé, médico Egídio Dorea e jornalista Gilberto Dimenstein

Envelhecimento e a sociedade

No módulo que discutiu a o envelhecimento e a sociedade o professor Luiz Felipe Pondé e  o jornalista e professor Gilberto Dimenstein trouxeram os conceitos de amadurecimento e narrativa como forma de encarar o envelhecimento de maneira mais plena.

Pondé trouxe um questionamento e uma perspectiva para os idosos do futuro ao  falar do conceito de amadurecimento no envelhecimento. “Em que medida precisamos contemplar o futuro sem a noção de amadurecimento?”.

Para ele há um conjunto de elementos que faz parte do amadurecimento. “Primeiro a dificuldade de sair de casa, segundo a dificuldade de se tornar auto-suficiente, terceiro a dificuldade e temor de estabelecer vínculos afetivos a médio prazo, e o quarto marcador usado pelos pesquisadores é projeto de reprodução, esse então está na miséria. Muitos jovens se envolvem profundamente com problemas sociais, mas são incapazes de criar dois filhos em casa, porque dois filhos em casa é muita realidade, duram muito e custam muito caro. São poços constantes de amadurecimento e de conflito” aponta.

O filósofo destaca a obra Rei Lear, de Shakespeare, como uma espécie de patrono de sua fala por refletir o tema da herança, do envelhecimento, do local do idoso na sociedade e também porque para ele alguns textos clássicos nos ajudam a lidar com questões humanas.

“Provavelmente no futuro teremos idosos que viverão muito, que provavelmente  serão sozinhos, que terão poucos vínculos, que serão consumidores organizados, empoderados, mas que se eles forem uma continuação do que os milênios são hoje, em grande medida terão um menor amadurecimento. Se você entender amadurecimento como a capacidade que as pessoas tinham de lidar com contradições e de perceber que uma das melhores formas de tornar a sua vida infeliz é querer ser feliz o tempo todo…Então quem sabe a função de amadurecimento vai pertencer a inteligência artificial”, destaca Pondé.

Dimenstein discutiu o envelhecimento a partir do conceito de narrativa que para ele está ligado às iniciativas que tomamos ao longo da nossa vida.

“Perder a narrativa não está nem ligado a ideia do envelhecimento, está ligada a ideia da morte, está ligada ao meu fim. O que manteve a minha narrativa foi ter entrado no mundo da internet, que me obriga a aprender 24 horas por dia. Não a possibilidade de parar de ter curiosidade, senão você tem a morte. Então a ideia de aprender e a narrativa ficou uma coisa só”, explica.

Ele explicou ainda que as empresas mais criativas são aquelas que lidam com a  diversidade.

“O mundo do trabalho percebeu que as empresas mais produtivas são aquelas que tem mais diversidade. Gays, mulheres, negros, pessoas com deficiência e idosos. Você só consegue ser criativo de fato quando lida com a diversidade, porque ela te traz repertórios grandes para ir longe”, revela Dimenstein.

Da esquerda para a direita: Ex-ministro e professor José Gregori, a professora Guita Grin, o professor e médico Alexandre Kalache e a professora Marília Berzins.

Direitos Humanos

O módulo final do evento discutiu o envelhecimento e os direitos com mediação do professor e médico Alexandre Kalache. Os desafios da comunidade LGBT e dos Negros com relação a esse tema foram discutidos pelas professoras Guita Grin Debert e Marília Berzins, respectivamente.

Para elas o preconceito permeia ainda mais esses dois grupos.

“A mulher negra, pobre e velha sofre dupla discriminação. Comumente as negras velhas são associadas, para os não negros, com as suas babás, faxineiras. Os idosos brasileiros podem experimentar o preconceito duplo, triplo ou quádruplo – racial, gênero, social e etário”, relata Marília Berzins.

Já Guita Grin, diz que as dificuldades enfrentadas pelos idosos do grupo LGBT estão relacionadas com a negação de sua identidade.

“Há muitas dificuldades nesse grupo para encontrarem casa de repouso por exemplo, principalmente se elas forem religiosas, pois precisam esconder a sua sexualidade, algo que lutaram a vida toda para mostrar”, destaca.

O ex-ministro de estado e presidente da Comissão de Direitos Humanos da USP José Gregori tratou do tema direitos humanos como algo que está em constante desenvolvimento. “Em matéria de direitos humanos nunca há a última conquista, sempre haverá algo para ser conquistado”.

Gregori ressaltou que a iniciativa do evento não pode ficar só na reflexão. “Precisamos fazer com que simpósios como este não sejam só momentos de reflexão, mas ponto de partida para como podemos agir para extinguir essas deficiências”.

Questionado sobre a participação também dos jovens no evento Egídio Dórea relata que essa foi uma das preocupação da organização.

“Esse foi um dos nossos grandes objetivos, abranger um público cada vez mais diverso. Eu acho que os jovens estão cada vez se preocupando mais, apesar de ainda existir essa dicotomia, porque é um fato, um desejo de todo mundo envelhecer e envelhecer bem. Então quando vemos hoje um programa de empreendedorismo, de startups, vemos a participação grande dos jovens. Mas é importante essa integração porque o idoso tem que ter a voz nesses processos. Ele sabe exatamente o que é importante para ele porque está vivenciando todos os aspectos do envelhecimento”, ressalta.

Para acompanhar o conteúdo das palestras estão disponíveis os  link do youtube com os conteúdos da manhã e da tarde.

Por Caminhos da Cultura

II Simpósio USP Rumo A
  • Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin
      • Rua da Biblioteca s/n, Cidade Universitária