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Cinema da USP apresenta mostra “Cinema Sobre Cinema”

Cinema da USP apresenta mostra “Cinema Sobre Cinema”

CINUSP Paulo Emílio - 08/08/2022

Público pode conferir a seleção de filmes gratuitamente de 8 a 26 de agosto de 2022

Uma vez que o cinema sempre buscou assimilar a sociedade por meio de filmes, sua importância e impacto tornou-se inquestionável ao longo do tempo. Desde o momento que os irmãos Lumière realizaram a primeira exibição cinematográfica pública em 1895, até os dias de hoje, o cinema vem revolucionando a maneira de contar histórias e entender imagens. Ódio, tristeza, amor, compaixão, revolta, enlouquecimento – tudo pode ser comunicado através de uma tela. E como ao longo do tempo o cinema já fez-se inerente a nossas vidas, ele pode também se voltar para si mesmo, analisando sua própria linguagem e seus próprios processos de criação.

Entre os dias 8 e 26 de agosto, o Cinusp apresenta a mostra Cinema sobre cinema. Revelando que o cinema também pode ser sobre cinema, explorando criativos e instigantes empregos da metalinguagem no mundo cinematográfico através do tempo. São 15 sessões que apresentam ao público 14 longas-metragens, 1 média-metragem e 2 curtas de variados países e anos de lançamento. A partir dessas obras (que incluem clássicos da história do cinema), visa-se contemplar e homenagear a arte e o ofício.

A palavra metalinguagem, de origem grega, define-se como uma linguagem usada para falar de outra linguagem. O emprego da metalinguagem é recorrente em diversas manifestações artísticas: já em 1656, o pintor espanhol Diego Velázquez concretizava sua obra “As Meninas”, um quadro que mostra, entre outros elementos, um pintor no meio da realização de uma pintura. A utilização desse recurso gera extrema curiosidade, e quando aplicadas ao cinema essas ideias indicam uma narrativa cheia de possibilidades: o retrato de atores, diretores, bastidores, sets de filmagens e diversos outros artifícios podem ser utilizados, criando cenas inimagináveis que vão até onde limite da criatividade do realizador permite.

Em uma sessão especial, o público vai viajar aos primórdios do cinema com a exibição de três filmes importantes: Sherlock Jr., de Buster Keaton, entrelaça mistério criminal com realização de cinema ao contar a história de um projecionista que também sonha em ser detetive. Em sequências de ação de tirar o fôlego, o protagonista adentra uma projeção e se vê como intruso em obras que estão acontecendo em tempo real. Joãozinho na Película, curta-metragem de 1914, traz Charles Chaplin passeando por um set de filmagens de jeito cômico e divertido, interagindo com os presentes e com a câmera – além da comédia física característica de Chaplin, há a quebra da quarta parede de forma pioneira e inteligente. O último filme da sessão é Para as crianças, de Louis Feuillade, datado de 1917. Aqui, uma família extrapola o campo fílmico e também percorre um estúdio de produção em pleno funcionamento. A junção dessas três obras em uma única sessão revela que não é de hoje a vontade de examinar as grandes máquinas de produção cinematográfica – a curiosidade pelos bastidores do cinema já é secular.

Na década de 50, mais de duas décadas depois do advento do som no cinema, também nota-se o interesse pela metalinguagem atingindo os musicais, gênero em que o espetáculo dentro do filme é tema bastante frequente. Na mostra, dois filmes desse período marcam presença. Carnaval Atlântida, uma chanchada brasileira, recruta figuras como Oscarito e Grande Otelo e os coloca nos bastidores de uma produção cinematográfica às avessas. Cecil B. de Milho, personagem do filme, é uma paródia de Cecil B. DeMille, importante cineasta americano responsável por produções de alto porte, a exemplo de Os Dez Mandamentos (1956). A figura desse mesmo diretor é parodiada em outro filme presente nessa mostra, o catártico e violento Cecil Bem Demente, de John Waters. A recorrência de referências à figuras hollywoodianas e cineastas importantes em diferentes obras denota uma conexão implícita entre os filmes apresentados – pequenas pistas e peças de um quebra-cabeça metalinguístico que se utiliza dessas figuras a fim de homenageá-las, mantendo vivo seu legado e importância histórica. Outro musical dos anos 50, Cantando na Chuva, com Gene Kelly, investiga a transição do cinema mudo para o cinema falado com muita música e technicolor.

Clássicos da história do cinema mundial, e A Noite Americana trazem em foco a figura do diretor e a incrível (e por vezes caótica) dinâmica dos sets de filmagem. No primeiro, dirigido por Federico Fellini, acompanhamos o diretor Guido enquanto este passa por um bloqueio criativo antes de rodar sua próxima obra. Através de humor e surrealismo, Fellini investiga a mente de um criador – seus medos e inseguranças, suas ideias e visões. Utilizando-se do absurdo, o filme nos revela o que a pressão da criação artística pode causar à mente humana, uma vez que Guido, frustrado com suas próprias ideias, vê tornar-se cada vez mais difícil discernir ficção e realidade. Em A Noite Americana, os percalços do cinema também estão expostos em uma das obras mais famosas de François Truffaut. Nessa obra de 1973 , acompanhamos um set e seus funcionários conforme enfrentam os mais variados imprevistos. O que se nota em ambos os filmes é o predominante sentimento de que, por mais que às vezes seja complexo e estressante, o processo de realização cinematográfica também pode ser extremamente gratificante.

E se o cinema dispõe de várias formas para examinar e retratar os problemas do cotidiano, o cinema voltado para a metalinguagem atravessa diferentes gêneros na hora de pintar seus cenários. Saneamento Básico: o filme, realização do cineasta brasileiro Jorge Furtado, traz o riso para refletir sobre o desleixo do governo com os direitos básicos de saneamento e as condições de produção do cinema no país. Na história, os moradores de uma cidade fictícia sofrem com a falta de um fosso e descobrem que o único dinheiro disponível na prefeitura está sendo guardado para a produção de um filme; a partir disso, lhes ocorre a ideia de usar a quantia para construir o fosso e rodar um filme sobre o monstro que habita nele. A comédia, aqui, é usada como ferramenta para crítica social – a realização de um filme independente, portanto, vira arma política de um grupo de indivíduos ignorados pelo poder público. Também na chave da comédia está Adaptação, filme norte-americano de 2002 dirigido por Spike Jonze e com roteiro de Charlie Kaufman. Na trama, um roteirista que obteve sucesso repentino com seu último trabalho deve repetir o feito adaptando para cinema um estranho livro sobre orquídeas. O que começa como uma grande oportunidade aos poucos se revela uma enorme frustração. O filme, extremamente metalinguístico, possui Nicolas Cage interpretando uma caricatura do próprio Charlie Kaufman e conta até com a participação especial de Robert McKee, um dos mais importantes professores de escrita criativa e dramaturgia do nosso tempo, em uma cena hilária onde Robert ministra uma palestra sobre escrita de roteiros e grita enfurecido com todos os presentes. Assim como em , o foco de Adaptação é a mente de quem cria, e não são impostos limites na hora de retratar tais inconscientes – vale humor, surrealismo, terror, etc.

Valorizando a produção cinematográfica independente e de baixo orçamento, Shirkers – O Filme Roubado, nos apresenta a um grupo de amigas que realizam o sonho de rodar seu primeiro filme apenas para vê-lo ser roubado de suas mãos. Com apenas dezoito anos de idade, Sandi Tan escreveu, dirigiu e protagonizou um filme vanguardista em Cingapura, 1992. Ela e suas amigas contaram com a ajuda de seu professor, que, na pós-produção do filme, roubou as gravações originais e desapareceu país adentro, dando fim a viabilização e lançamento do projeto. Esse documentário, portanto, é uma investigação feita pela própria Sandi a fim de rememorar e registrar a existência de seu filme. Revelando imagens de arquivo e com tom nostálgico, Shirkers nos faz enxergar uma obra que nunca se concretizou, mas que ainda assim merece ficar marcada na história e no tempo. No cinema, grande ou baixo orçamento se misturam, e autores deixam suas marcas na história a partir de seus diferentes talentos.

A representatividade também é pauta importante quando falamos da relação entre cinema e sociedade – quem são as pessoas que vemos nas telas e por trás delas? The Watermelon Woman de Cheryl Dunie traz a história de uma mulher negra e lésbica, interpretada pela própria diretora, que está numa empreitada pessoal: fazer um filme sobre a busca por uma atriz negra conhecida nos anos 30 como Watermelon Woman, cujo ninguém mais ouviu falar. Ilusões, de Julie Dash, um dos principais nomes da L.A Rebellion, critica os estereótipos veiculados pelo cinema industrial americano ao retratar o encontro entre uma assistente de produção e uma cantora negra contratada para dublar atrizes brancas em cenas musicais.

A programação completa, com dias, horários, sinopses e trailers, está disponível no site: usp.br/cinusp.

Cinema da USP apresenta mostra “Cinema Sobre Cinema”
  • Classificação: Livre
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