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Cinusp estreia mostra “Eles que lutem”

CINUSP Paulo Emílio - 21/01/2020

O Cinusp Paulo Emilio abre a programação 2020 com a mostra Eles que lutem. Leia abaixo a carta de apresentação da curadoria e, ao final, o box de serviço. Para saber mais sobre os filmes da mostra, clique aqui.

Desde os princípios da civilização humana, o confronto corpo-a-corpo levou diferentes povos a desenvolverem e aperfeiçoarem métodos específicos de combate, utilizados para defesa pessoal e ataque e depois como instrumentos de condicionamento físico, tradição ritualística e entretenimento. Estes sistemas se tornaram as artes marciais, que, seja como esporte, evento cultural ou simples pancadaria, foram e ainda são extremamente populares e influentes; no Brasil, quase 5 milhões de pessoas praticam algum tipo de arte marcial, número que cresce a cada ano. No cinema, as artes marciais encontraram um meio para promover diferentes estilos de luta e entreter e inspirar pessoas no mundo todo com histórias que mostram pessoas capazes de lutar por seus sonhos e objetivos com as próprias mãos, pés, joelhos, cotovelos e cabeças – mesmo que vá doer um pouco. Entre os dias 27 de janeiro e 16 de fevereiro, o CINUSP apresenta grandes obras do cinema de artes marciais para propor: ELES QUE LUTEM.

Para os lutadores desses filmes, as lutas são um elemento integral de suas vidas, influenciando a forma com que percebem o mundo e interagem com ele. No cinema de artes marciais, consequentemente, os treinos, competições, perseguições e batalhas são a principal forma com que os personagens se expressam e as narrativas se desenvolvem. Os lutadores e cineastas adequam as cenas de combate a diferentes tipos de personagens, épocas, gêneros e tendências e práticas cinematográficas. Como artes visuais, as lutas encontram no cinema um parceiro perfeito para demonstrar seus estilos em grandes trabalhos de coreografia, contando histórias que provam que ações podem valer mais do que palavras.

Bruce Lee, talvez o lutador mais famoso e influente do cinema, é exemplo do apelo das artes marciais e de seu caráter inspirador. De origens europeia, americana e chinesa, Lee produziu, coreografou e atuou em filmes como o icônico Operação Dragão em Hong Kong e nos Estados Unidos que ajudaram a disseminar as artes marciais chinesas pelo mundo, e seu estilo de luta – baseado no Jeet Kune Do, luta precursora do MMA que ele criou – foi extremamente influente para o cinema mundial. Outro grande lutador que aproximou o ocidente e o oriente é Jackie Chan, criador de inovadoras comédias de ação como A lenda do mestre invencível II, que faz espetacular uso do kung fu drunken master (mestre bêbado) e mostra o personagem de Chan não como invencível, mas como um homem comum desajeitado, mas extremamente determinado a superar obstáculos.

Chan e Lee vêm de uma longa tradição de filmes chineses de wuxia, gênero de histórias de artes marciais que no cinema eram produzidas por grandes estúdios especializados. Um dos mais importantes, o lendário Shaw Brothers, foi o local de início de carreira para King Hu, diretor de alguns dos mais aclamados exemplos do gênero dos anos 60 e 70; seu épico Um toque de zen combina ensinamentos do zen budismo com inovadoras técnicas de montagem no wuxia de época em que uma jovem nobre enfrenta dezenas de inimigos. Stephen Chow, grande admirador dos clássicos do gênero, se tornou um dos grandes nomes do cinema chinês contemporâneo, incorporando, como em Kung-fusão, efeitos especiais às cenas de luta para criar confrontos que vão do mitológico ao absurdo, em cômicos tributos aos seus antecessores.

Outra luta com uma longa história no cinema é o boxe: originado na Grécia antiga e modernizado pelos ingleses, ele se tornou um tema clássico do cinema americano. Creed – nascido para lutar, filme de Ryan Coogler, revigorou a franquia Rocky ao contar a história do filho de seu maior rival, que segue os passos do pai e de Rocky, seu novo treinador, combinando a fórmula clássica do filme original com o universo do boxe e do cinema dos nossos tempos. Outro exemplo recente do poder da relação entre mestre e aprendiz nas lutas é Menina de Ouro, vencedor do Oscar de Clint Eastwood que conta a triste história, de uma lutadora que enfrenta a pobreza e a solidão e decide seguir lutando a qualquer custo, enquanto reconstrói a imagem carrancuda e impenetrável do diretor e subverte sua própria narrativa com momentos sutis e imprevisíveis.

Touro indomável, filme de Martin Scorsese baseado no boxeador Jake LaMotta, também trata da mitologia do boxeador, acompanhando o auge e o declínio do agressivo e possessivo pugilista e colocando a câmera dentro dos ringues para revelar a experiência sensorial e psicológica das lutas. Já o brasileiro 10 segundos para vencer adapta a história real de Éder Jofre de forma mais otimista, apresentando a jornada de um dos grandes boxeadores do século XX rumo ao título mundial. Para Jofre, o boxe é uma oportunidade, uma chance de conquistar uma vida melhor.

As artes marciais como um meio de defender ideais e proteger as pessoas são um tema recorrente no cinema. Em O crisântemo e a guilhotina, um grupo de mulheres pratica o sumô como um esporte de combate que une as pessoas; ao acompanhar um período de importantes e turbulentos eventos da história do Japão, também acompanha-se a evolução da protagonista Kikuchi em sua dedicação ao sumô e sua popularidade e significância cultural. Besouro, capoeirista negro do início do século XX sobre quem surgiram histórias de feitos lendários, também trava lutas de caráter político, nesse caso contra o racismo e em defesa da capoeira como uma expressão cultural; para o herói brasileiro, ela também é uma ferramenta de defesa e resistência. Outro herói mitológico aparece no filme italiano Maciste, de 1915. Nele, um lutador que recebe a missão de proteger uma moça perseguida por um grupo de bandidos dá sequência a uma extensa série de filmes – que começou com o épico Cabiria no ano anterior – em grande estilo, escalando paredes, quebrando objetos a socos e cabeçadas e agindo sem limites para espancar, nocautear e arremessar qualquer um que se ponha como obstáculo.

Dangal, filme sobre duas irmãs que se tornam as primeiras indianas premiadas em competições internacionais de luta olímpica, mostra a batalha por espaço e representatividade, assim como por excelência, como reflexo das circunstâncias em que as mulheres se encontram quando decidem se tornar lutadoras. O que começa como um legado imposto pelo pai ex-lutador se transforma em uma paixão pela qual ambas se dedicam por inteiro. Outra difícil relação de legado familiar acontece em Huracán Ramirez, melodrama mexicano no qual o mascarado de mesmo nome que pratica a tradicional lucha libre recusa os desafios de outro luchador, que não sabe que é pai de Ramirez.

Jornadas de lutadores em busca de excelência, assim como a exibição de performances desses lutadores em prol da promoção de diferentes estilos, estão presentes em outros filmes da mostra. Em Sanshiro Sugata – a saga do judô, filme de estreia de Akira Kurosawa, a trajetória de um lutador que começa no jiu-jitsu e se torna judoca retrata a luta como transformadora tanto do corpo quanto da mente, traçando a jornada de Sugata como uma jornada espiritual e o judô como a essência dela – mostrando também versões antigas de ambos os estilos de luta, antes de serem modernizados no século XX. O protetor, estrelado e co-coreografado pelo lutador tailandês Tony Jaa, apresenta o muay thai em uma história com um forte senso de identidade nacional, que opõe o personagem de Jaa contra criminosos responsáveis pelo sequestro de seus adorados elefantes, incluindo um aclamado plano sequência nas escadarias de um restaurante e confrontos contra lutadores de capoeira, wrestling e kung fu.

Operação Invasão segue o caminho contrário: no filme, um grupo de policiais da Indonésia liderados pelo personagem do lutador Iko Uwais usam suas habilidades de pencak silat, estilo de lutas tradicional do país, para enfrentar uma gangue de criminosos em um edifício comandado por Mad Dog, em uma mistura de thriller policial com filme de luta; para eles, as habilidades dos personagens são instrumentos de batalha. Uma exibição ainda mais ambiciosa de tipos de luta ocorre no torneio de O grande dragão branco, filme estrelando Jean-Claude Van Damme em um de seus papéis mais conhecidos que coloca os diversos estilos dos competidores uns contra os outros.

Mais do que histórias que apresentam diferentes tipos de lutas, os filmes da mostra trazem as artes marciais como uma linguagem universal, uma forma física e mental de se expressar e que une pessoas de todas as origens em torno de exemplos de força, disciplina e determinação. Reconhecendo o tipo de experiência única que o cinema tem quando encontra as artes marciais, o CINUSP convida todos a conhecerem melhor o mundo dos lutadores, e propõe a todos que lutem também.

Cinusp estreia mostra “Eles que lutem”
    
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